Existem hoje entre 47 e 48 milhões de evangélicos no Brasil, segundo dados do IBGE citados na live — e levantamentos mais recentes falam em 60 a 70 milhões. É um número que impressiona. Mas ele vem acompanhado de outro, bem menos comentado: o dos desigrejados. Pessoas que tiveram um encontro real com Deus, ouviram o Evangelho, foram impactadas — e hoje não congregam em lugar nenhum.

Pelos dados apresentados, são 6,9% da população evangélica. Algo entre 4 e 5 milhões de pessoas, com pesquisas mais recentes apontando de 10 a 15 milhões. E quando se pergunta por que saíram, três motivos concentram cerca de 80% das respostas: esfriamento espiritual, problemas com a liderança e problemas de relacionamento.

Repare no que os três têm em comum. Nenhum deles é sobre alcance. Todos são sobre cuidado.

Foi esse o ponto de partida da live que Pedro Franco, CEO e cofundador da inChurch, conduziu ao lado do pastor Filipe Levak, da Comunidade da Fé, em Americana (SP). Uma conversa sobre como fazer a igreja crescer no digital sem repetir o erro de alcançar multidões e perder pessoas pelo caminho.

A live completa, com a sessão de perguntas e respostas.

O que trava a igreja brasileira no digital

A inChurch ouviu mais de 5.000 pastores — clientes e não clientes — para entender onde estão os gargalos. Um dado saltou: 30% deles não sabem dizer em que ponto perdem suas ovelhas. As pessoas entram, começam a caminhar e, em algum momento, desaparecem. Ninguém soube dizer onde.

Da mesma pesquisa saíram seis dores recorrentes:

  1. Não conseguir atrair pelo digital. Há presença nas redes, mas ela não converte em pessoas alcançadas.
  2. Atrair, mas não reter. O conteúdo funciona, o engajamento não se sustenta.
  3. Crescer sem saber quantos membros de fato caminham juntos.
  4. Perder pessoas sem saber quem, quando e por onde.
  5. Falta de equilíbrio entre o investimento físico e o digital.
  6. Dificuldade de dar experiência ao membro que vive no digital.

Existe uma frase, citada na live e atribuída a um pastor de Goiânia, que resume a terceira e a quarta dor melhor do que qualquer estatística: o pastor só foi atrás da ovelha perdida porque ele sabia que tinha cem. Se não soubesse o total, jamais perceberia que uma faltava.

Atrair no digital: seja uma igreja interessante, não interesseira

Filipe Levak resume assim a lógica da atração: “não seja uma igreja interesseira, seja uma igreja interessante”.

A diferença está em quem ocupa o centro da mensagem. Jesus, observa ele, sempre entrava no mundo do outro antes de levar qualquer coisa: falava de pesca com pescador, de semente com semeador, de moeda, de vinho, de família, de trabalho. Depois transformava aquilo em mensagem espiritual.

No ambiente digital isso se traduz numa regra prática: dê às pessoas aquilo que elas querem, mas ofereça aquilo que elas precisam.

Na prática, significa sair do conteúdo genérico e falar do que de fato aflige quem está do outro lado da tela — ansiedade, propósito, identidade, criação dos filhos, vícios, solidão, o que a Bíblia diz sobre masculinidade e feminilidade. As pessoas não se conectam com a igreja em si. Elas se conectam com a dor que está sendo resolvida.

E há um segundo fator, menos glamouroso: constância. “Você nunca vai ser bom naquilo em que você não é constante”, diz Levak, apontando o erro mais comum — igrejas que tentam estar em todas as plataformas ao mesmo tempo e acabam não sendo relevantes em nenhuma. A Comunidade da Fé escolheu o YouTube e concentrou esforço ali.

O resultado desse foco, segundo os números apresentados na live: mais de 97 milhões de visualizações acumuladas no canal, um vídeo que passou de 8 milhões de views, mais de 1 milhão de inscritos, 74 países alcançados e 29 milhões de horas assistidas. Só em um mês de abril foram 2,76 milhões de visualizações e 25 mil novos inscritos.

Um detalhe que costuma passar despercebido: antes, a igreja mantinha uma rádio FM própria, que consumia caixa — concessão, locutores, link dedicado, estúdio. Hoje o canal do YouTube gera receita. Foram cerca de US$ 176 mil acumulados, revertidos em equipamento, obras sociais e ações missionárias.

Do visitante ao membro: hospitalidade é estratégia

“Não se esqueçam de praticar a hospitalidade, pois foi praticando-a que alguns, sem o saber, acolheram anjos” (Hebreus 13:2). A live parte desse texto para uma pergunta incômoda: como sua igreja trata quem chega pela primeira vez?

Muitas comunidades ainda mantêm o hábito de pedir que o visitante levante a mão ou fique de pé durante o culto. Segundo pesquisa citada na conversa, é justamente uma das coisas que as pessoas menos gostam de fazer. Ninguém quer ser publicamente identificado como o estranho da sala.

Na Comunidade da Fé, o caminho é outro. Logo na entrada há um ponto de cadastro com uma placa: é sua primeira vez aqui? Temos um presente para você. A pessoa recebe uma sacola com copo personalizado, caneta e material impresso explicando quem é a igreja, qual sua missão, quais os dias de culto, quais ministérios existem e quem são os líderes.

No dia seguinte ao culto, a equipe usa os dados coletados para enviar uma mensagem e convidar essa pessoa para um café de boas-vindas — caso ela ainda não tenha uma igreja.

O ambiente somos nós quem preparamos, mas a presença é Deus quem manifesta.

É uma distinção importante. Ninguém tem poder de convencer alguém a permanecer; esse é o trabalho do Espírito Santo. O que está sob responsabilidade da liderança é preparar um ambiente digno de quem chega. Se você quer aprofundar esse ponto, vale ler também como transformar visitantes em membros da igreja.

Como saber quem realmente é membro da sua igreja

Aquilo que não pode ser mensurado também não pode ser gerenciado. E o método tradicional de medir membresia — a frequência aos cultos — vem perdendo precisão. Uma geração que antes participava de quatro cultos no mês hoje participa de dois. Isso não é algo a ser celebrado, mas é algo que não se pode ignorar.

A solução encontrada por Levak foi criar um ponto de contato diário em vez de semanal: um plano de leitura bíblica no aplicativo da igreja, com um capítulo por dia, acompanhado de uma oração e uma declaração de fé.

Repare na lógica dupla. O membro recebe algo que ele quer — constância na leitura da Palavra e um começo de dia com Deus. E a igreja passa a saber o que precisa saber: quantas pessoas estão ativas, quem está lendo, quem parou. O mesmo aplicativo permite que o membro cadastre os filhos no módulo infantil, o que revela quem é casado, quem tem filhos, qual a composição real daquela membresia.

Há ainda um recurso de acompanhamento emocional, em que a pessoa registra como está se sentindo — triste, ansiosa, enfrentando um problema — ou envia um pedido de oração. A liderança acompanha isso diariamente.

O efeito prático é reduzir a distância entre um domingo e outro. Sobre estruturar essa base de informações, veja como organizar os dados dos membros da igreja.

A porta do fundo não deve ser fechada. Ela deve ficar mais longe

“Fechar a porta do fundo” é provavelmente a expressão mais repetida em reuniões de liderança. E é justamente a que Levak contesta.

O argumento é teológico antes de ser estratégico: Deus concedeu livre-arbítrio. “Eis que estou à porta e bato” — se abrirem, Ele entra; se não abrirem, respeita. Uma igreja que tranca as pessoas dentro está fazendo o oposto do que o próprio Cristo faz.

O segredo da igreja local nunca foi fechar a porta do fundo, mas aumentar a distância entre a porta de entrada e a porta de saída.

E como se aumenta essa distância? Reconhecendo que as pessoas não estão todas no mesmo nível de consciência. Quem chegou hoje ao primeiro culto não está no mesmo ponto de quem caminha há trinta anos. Tratar os dois igualmente é o erro mais comum.

A saída é desenhar uma jornada com um próximo passo sempre visível: o visitante que chega, a decisão por Cristo, os primeiros passos, o batismo, a membresia, o envolvimento em um grupo ou célula, o voluntariado, a liderança. Quando a pessoa chega perto de considerar sair, ela já está comprometida com algo que gerou pertencimento, propósito e relacionamentos reais.

Pedro Franco acrescenta uma provocação ouvida de outro pastor: a igreja é ótima em fazer eventos e péssima em desenhar processos. Sabemos causar impacto, mas temos dificuldade de conduzir pessoas ao longo do tempo.

Ele lembra ainda o caso de Paulo. Um homem que teve um encontro com Cristo capaz de mudar a história da Igreja — e que, ainda assim, precisou de alguém para lhe dizer qual era o próximo passo: o batismo. Se Paulo precisou de clareza sobre o próximo passo, imagine quem acabou de chegar.

Toda trilha é um funil

Quando a igreja transforma essa jornada em etapas acompanháveis, ela ganha visibilidade sobre algo que antes era invisível: quantas pessoas entraram em cada trilha, em que etapa cada uma está, quantas concluíram e — o mais importante — quem abandonou no meio do caminho.

O desafio deixa de ser abstrato e vira uma meta clara: fazer com que o mesmo número de pessoas que entrou seja o número que conclui. Sobre as causas mais frequentes de desistência, leia como diminuir a evasão de membros na igreja.

Equilíbrio entre físico e digital: uma lista de prioridades

Uma das perguntas mais frequentes é onde investir primeiro. A resposta de Levak começa em um lugar inesperado — e ele avisa que está falando sério.

O banheiro. Numa mentoria com Rick Warren, ele ouviu que o banheiro é a primeira coisa que uma pessoa procura ao chegar numa igreja. Se ela está desconfortável, tímida ou simplesmente precisa de um instante sozinha, é para lá que vai. “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor” (Colossenses 3:23) vale também para a limpeza de um banheiro.

A ordem de prioridades que ele sugere:

  • Banheiro e estacionamento — o primeiro contato com o ambiente.
  • Departamento infantil — professoras, material, ensino e segurança. “As crianças não são a igreja do futuro. Elas já são a igreja de agora.”
  • Ministério de louvor — som, liturgia, formação da equipe.
  • Cultura de voluntariado — pessoas alegres que gostam de receber gente.
  • Presença digital — equipamento, plataformas e formação de quem opera.

O digital aparece no fim da lista, mas com uma ressalva importante: não menos importante. É o campo missionário de hoje. Sobre esse ponto de equilíbrio, vale ler igreja híbrida: o conceito e o papel da tecnologia.

É possível ser relevante sem ser grande

Esse talvez seja o dado mais encorajador da live. A Comunidade da Fé fica numa cidade de cerca de 200 mil habitantes e tem por volta de 3.500 membros. A equipe de mídia é formada por três pessoas contratadas. Todo o resto é voluntário — o líder de fotografia, o líder do culto ao vivo, o líder de iluminação, o moderador que acompanha os comentários durante a transmissão.

Cada área tem um líder e uma responsabilidade definida. Não é sobre ter muita gente; é sobre ter as pessoas certas e uma cultura de serviço. E a cultura de voluntariado, lembra Levak, não é um método — é um mandamento: “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Marcos 10:45).

O que muda na igreja digital em 2026

Transmitir culto deixou de ser novidade. A pergunta agora é outra: o que muda daqui para frente? Levak aponta cinco mudanças.

1. As pessoas não buscam mais produção. Buscam verdade

Houve um tempo em que uma boa câmera, um cenário bonito e uma edição caprichada chamavam atenção. Hoje todo mundo tem painel de LED, câmera boa e inteligência artificial para ajudar na edição. A estética virou commodity.

O diferencial passou a ser o oposto do que se imaginava: não é parecer mais profissional, é parecer mais humano. As pessoas estão saturadas de conteúdo montado, criatividade copiada e performance religiosa. O que buscam é autenticidade, vulnerabilidade e transparência — e percebem rápido quando estão diante de marketing religioso.

2. A igreja não compete com outras igrejas. Compete com o algoritmo

A disputa não é com a congregação do bairro vizinho — com ela a relação é de colaboração, porque a missão não é encher a nossa igreja, é povoar o céu. A disputa por atenção é com Netflix, TikTok, jogos, influenciadores e plataformas de aposta.

Como diz Levak, hoje ninguém entra na internet procurando uma igreja. É a igreja que precisa aparecer no caminho das pessoas. E isso muda a lógica: não basta transmitir um culto. É preciso pensar em como criar um ponto de encontro digital para quem nunca entraria num templo.

3. O conteúdo que atrai é o que gera identificação

As pessoas seguem quem entende suas dores, verbaliza suas crises, responde suas perguntas e resolve seus problemas. É a mesma lógica de Jesus falando de pão, pesca e semente — só que aplicada às perguntas de hoje.

A recomendação é direta: mude a linguagem, mas não comprometa a mensagem. O erro frequente é falar num dialeto que só quem já está dentro entende.

4. O futuro não é online nem presencial. É híbrido

A discussão sobre qual formato substituirá o outro está mal formulada. Os dois têm funções distintas e complementares:

  • O online conecta, desperta, alcança e evangeliza.
  • O presencial discipula, fortalece, gera comunhão e constrói raízes.

O online pode alcançar multidões, mas é o discipulado que continua transformando vidas.

5. O que atrai continua sendo a presença de Deus

Depois de toda técnica, ferramenta e inteligência artificial, permanece o essencial. O ser humano está hiperconectado digitalmente e vazio espiritualmente. O que faz diferença não é o melhor equipamento — é uma palavra de amor, uma mensagem ungida, um testemunho verdadeiro, uma oração sincera.

Como Levak conclui: a igreja online não cresce porque entende de internet. Ela cresce porque entende de pessoas.

Como criar cultura de uso do aplicativo da igreja

Uma pergunta da audiência mereceu resposta detalhada: como fazer os membros efetivamente usarem o app da igreja?

Pedro Franco respondeu com a própria história. Quando o Uber chegou ao Brasil, ele resistiu — para que baixar um aplicativo, ocupar espaço no celular e entrar no carro de um desconhecido, se bastava ligar para o táxi? Hoje não pega táxi há anos. O que mudou não foi o produto, foi a cultura. E construir cultura tem preço.

Duas recomendações práticas:

Queime os barcos. O erro mais comum é anunciar assim: “as inscrições estão na secretaria e agora também no aplicativo”. Ao oferecer os dois caminhos, você mata o novo — as pessoas farão o que sempre fizeram. O correto é inverter: “todas as inscrições serão pelo aplicativo, e se você tiver dificuldade nossa equipe ajuda na secretaria”.

Crie incentivo. O Uber pagou pelos primeiros usuários com créditos de viagem. Uma igreja pode fazer o mesmo à sua maneira: concentrar uma campanha de jejum e oração no app, sortear algo entre quem participa de um plano de leitura, colocar ali conteúdos que não existem em outro lugar.

Há também uma razão defensiva. Quem depende só de WhatsApp e redes sociais é refém de regras que mudam sem aviso. Um canal próprio não é apenas conveniente — é soberania de comunicação.

Por onde começar

Se você chegou até aqui com a sensação de ter muita coisa para fazer, comece por poucas:

  1. Escolha uma plataforma e seja constante nela, em vez de estar mal em cinco.
  2. Revise a chegada do visitante — do estacionamento ao banheiro, do cadastro ao contato no dia seguinte.
  3. Defina qual é o próximo passo de cada pessoa, em cada estágio da jornada.
  4. Escolha uma métrica de membresia que não dependa só da frequência ao culto.
  5. Produza conteúdo que responda dores reais, não avisos internos.

Timothy Keller costumava dizer que igreja é o que acontece de segunda a sábado — no domingo os santos se reúnem para adorar. A pergunta que fica é o que a sua igreja está fazendo, de maneira intencional, nos outros seis dias.

Como resumiu Filipe Levak ao encerrar: o futuro pertence às igrejas que conseguem unir presença de Deus, comunicação assertiva, verdade que liberta, discipulado real e relevância digital. E o maior campo missionário de 2026 talvez não esteja em outra nação — está na palma da nossa mão.

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